Matando nosso Deus!

(baseado numa conversa com Iago Cavalcante)

homem sempre precisou da presença do divino. Porém, os muitos relatos falam dos que tentaram alcançá-lo e não conseguiram. Mesmo assim, desde sempre se quis materializar a imagem de Deus.

Tenho a leve impressão de que Ele não havia se revelado, até Jesus, porque temos a tendência de querer totalizar tudo. Materializá-lo seria perder o sentido da fé. Se o víssemos, a graça das coisas acabariam.

Entretanto, mesmo com a vida de Jesus e a revelação do Pai, as pessoas insistem em manter uma imagem fixa de Deus. José María Mardones em “Matar nossos deuses – Em que Deus acreditar?” fala exatamente sobre isso:

Com frequência acontece também entre os cristãos darmos por suposto que partimos de uma determinada imagem de Deus. Procedemos como se já soubéssemos quem é Deus. Normalmente temos na cabeça uma ideia, muito divulgada, de uma espécie de filosofia ou metafísica grega muito elementar, mas muito arraigada. Deus é, desde esse ponto de vista, o omni-todo: o onipotente, o onisciente…uma imagem de Deus vinculada ao ‘imaginário’ do poder, do ser, da força, da imposição, do maravilhoso.

Acabamos por transformar o Divino em um objeto obsessivo do nosso amor para podermos adorá-lo e termos ele como alguém “palpável”. Cometemos a perversidade de colocá-lo como o ser destino da nossa vida. Criamos uma relação verticalizada (com Deus), mas esquecemos completamente da horizontalizada (com o outro). Aí, quando se “ama demais” Deus, o cotidiano se torna uma mera repetição de uma identidade, de um modelo. Deus passa a ser parâmetro para analisar o resto. Quem está abaixo desse critério se torna desprezível, indigno. Na verdade, ficamos cegos de nós mesmos e da vida.

Essa imagem, aparentemente saudável, nos destrói e nos afasta das pessoas. O sagrado que criamos é a figura que temos de Deus e, quando criamos uma imagem imutável de Deus, não há espaço para o diferente e para a criatividade, já que, ao longo dos nossos, nossas percepções acerca de Deus vão mudando. Se não aceitarmos que “Deus também se adapta” conforme nossa compreensão vai se alargando, ficaremos estagnados pra sempre com a mesma impressão acerca de Dele. Aí, nada pode desviar dessa visão, senão está errado. Tudo o que é contrário passa a ser demoníaco ou, no mínimo, carnal. Como diz a sabedoria popular: “Quem ‘ama’ a Deus é capaz de odiar por Deus”.

Ter a experiência do “Deus perto” é essencial na vida, aumenta a auto-estima, mas torná-lo o único importante é ir na direção oposta do que Cristo ensinou. 

Lembro-me das inúmeras vezes em que cantei Kleber Lucas, Diante do Trono, Fernandinho, Toque no Altar. Lembro-me de quando orar não era opção, era obrigação, e o tema sempre girava em torno de mim mesmo e o excesso de culpa me sobrecarregava. Era do tempo de minha conversão e, apesar de, atualmente, eu ter ressalvas a essas músicas (ou até mesmo não gostar de ouvi-las) e não orar mais daquela forma, eu sei que fazia muito sentido para mim em um momento da minha vida, e, não se enganem, reluto para não esquecer. 

Nessa época, eu conheci um Deus próximo, diferente do que ouvia falar nas rezas e palavras dos meus pais (um católico, outro evangélico). Eu experimentava um ser que potencializava a minha vida. Me sentia forte, completo. Lembro dessa época com uma sensação de que era como se eu estivesse a plenos pulmões e de olhos arregalados. Queria viver só para Ele. Me sentia escolhido.

Mas, peraí! Se eu era escolhido, significava que outros não eram. Que Deus é esse que diz amar a todos, mas faz acepção de pessoas? Que Deus é esse que só serve para mim se à custa dos outros? Comecei a notar algumas incoerências em minha fé. Atentei que vivia uma espiritualidade empobrecida. Comecei a perceber que eu acreditava num Deus ambicioso e barganhador, que queria toda glória para si, que não era a favor da vida, e sim da exclusão, da vingança e da acusação. Um divino que, por mais “perto” que eu me sentisse, me distanciava do outro. Completamente contrário ao Deus revelado em Cristo.

Então, a partir das histórias que tive com Deus, ressignifiquei o que era divino e sagrado em minha vida e percebi que, assim como eu, Deus muda para não deixar de ser quem é: amor. [Iago Cavalcante]

A construção das identidades são uma tentativa de costura na nossa vida. É a nossa impressão sobre o que somos. Entretanto, esse relacionamento olho no olho” (próximo de Deus, mas sem enxergar que está ao redor) com Deus tem que passar, tem que evoluir, se transformar, amadurecer.

Se tivermos em Deus nosso objeto único de amor, nosso alvo de ser, nos cristalizamos, nos paralisamos, nos quedamos inertes. Quando, porém, descobrimos que Ele é o amor (amar a partir de dele) e não objeto de amor, o sagrado passa a ser um universo de infinitas possibilidades. O mundo passa a ser expressão de Deus e passamos a encontrar no outro a face de Cristo.

Se Ele realmente é amor, precisa expandir nossos horizontes, e não fechar nossos olhos para avida.

Já temos revelado o mistério de Deus [mas] não deixamos espaço para a novidade do Deus dos evangelhos, do Deus de Jesus. Quando chega o Deus de Jesus e vai se manifestando ligado ao rebaixamento, à limitação e à impotência, à vulnerabilidade e ao sofrimento, à pobreza, à oferta não impositiva, à compaixão e ao perdão não o reconhecemos. O Deus de Jesus tem seu lugar suplantado pelo Deus pagão. Nossa tarefa, portanto, é árdua, custosa: temos de matar nossos deuses. Temos de voltar a colocar em nossa mente e coração a imagem escandalosa do Deus de Jesus. [José Maria Marcondes]

Jesus, ao deixar-se ser tocado em suas feridas por Tomé, mostrou que cada vez que tocássemos um ferido, um esquecido, um excluído, um marginalizado, estaríamos tocando nele, em Deus. Estaríamos vendo o seu rosto. O sagrado passa a ser revelado no meio da escória e é lá, com eles, que devemos viver com toda a intensidade nossa espiritualidade. Lutando por igualdade. Batalhando para dar perspectiva de vida e oportunidades aos que não têm.

Não se serve a Deus com exclusão, mas por pertença. Somente na relação com o próximo é que se serve a Deus. [Eliel Batista]

Tentar dar uma totalidade ao sagrado e fechar sua essência em UM conceito é deixar de enxergarDeus nos gestos mais discretos. Temos de matar nossos deuses (engessados, mesquinhos e seletivos) e fazer nascer um novo em nós. Um Deus menos receoso em “salvar” e mais preocupado em estender a mão. Um Deus que nos converta ao outro.

[Piero Barbacovi]

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3 comentários sobre “Matando nosso Deus!

  1. David Santos disse:

    Suspira forte engole o nó que ficou preso na garganta.
    Texto maravilhoso que reflete a história de muitos de nós, que perceberam a incoerência na fé dos “filhos do rei” que precisam estar acima e além dos outros, para estar próximo e lavando os pés.

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